Sleep
O dia começou como outro qualquer. Cinco dormidas antes de acordar. Acorda, dorme, acorda, dorme, acorda e por aí vai...
Ela já havia pensando sobre isso durante a semana, mas, nos últimos meses era tudo que ela pensava. Algo a segurava, nunca era a hora certa, a testemunha certa ou o dia certo. Havia algo de estranho naquele dia.
O sono mal dormido deixava marcas em seu rosto. Além do amassado do travesseiro na bochecha esquerda, as olheiras haviam se tornado companheiras fiéis. Nunca fora interessada em maquiagem e não era agora que iria começar.
Todo dia, se olhava no espelho. Hábito novo: se sentia gorda; dia após dia divisava novas celulites e estrias que agora cultivava pelas curvas que antes tinha apreciação.
A cabeça doía desde cedo, a azia consumia suas entranhas antes de dormir e depois que acordava.
O amor próprio se esvaía como uma água do banho que ela esfregava a pele até ferir na tentativa frustrada de se purificar da vida medíocre que levava, como se numa tentativa desesperada, com uma nova pele nasceria uma nova pessoa, uma nova vida.
Ela não ligava mais para o cabelo, tanto fazia se amarrado ou solto, sujo ou limpo, bonito ou feio, ela nunca chegaria aos pés das outras.
Ao sair do quarto, respirou o ar confinado do corredor, sentiu a melancolia de não saber o porquê da vida e quanto tempo mais aquele martírio duraria. Pedia todos os dias a uma força oculta que algo a acertasse sem querer e a matasse, assim não teria a culpa nos ombros de ter praticado o impraticável.
Seus ombros eram arqueados para frente, como se estivesse sempre se defendendo do mundo. Olhava para baixo, pois não conseguia encarar as pessoas, seus julgamentos, suas opiniões, tudo parecia chulo.
Nas primeiras horas da manhã, todos de sua casa acordavam, dentre brincadeiras e frases soltas, ela ainda dormia. Um sono eterno que ela ansiava pelo dia que fosse acordar, mas que no momento não era possível devido a tamanho sonífero que ela tomava. Doses diárias de um forte alucinógeno pareciam acometê-la. Parecia que nada daquilo existia e que a qualquer momento ela acordaria e perceberia que estava sonhando.
Ela se vendia, todo dia, pelo silêncio. Trocava qualquer coisa pra não ter que responder a um “tudo bem?” ou “como vai?”, fugia da vida, encarava a existência.
Já não sabia mais porque começara aquilo e tudo e porquê de tudo estar como estava. Não lembrava mais a última vez que tinha sido sincera sobre si própria, quando havia desabafado seus problemas com alguém ou quando se sentiu realmente amparada, nada daquilo fazia mais sentido.
Escovou os dentes em meio ao turbilhão de gargalhadas que soavam longíquas aos seus ouvidos, exceto quando ela ainda forçava algumas. Sentia-se mal por compartilhar o deboche, não conseguia mais rir dos outros, sentia pena de si própria. Na verdade, não sabia mais gargalhar. Precisava de catalisadores de risadas, mais conhecidos como canabis. Mas também não sentia mais vontade de se drogar, e por isso, os sorrisos andavam escassos.
Saiu de casa, pegou seu ônibus e viajou pelo caminho em sua mente, em como tudo estava daquele jeito, do porquê ninguém ajudá-la, do bloqueio de se mostrar para os outros, da raiva que sentia do mundo e da frustração de viver. Nada tinha nexo, e ela era desprovida de vontades naquele momento.
Seus amigos pareciam-se cada vez menos com quem um dia foram. A tristeza aumentava quando ela via em seus olhos a visão de que tudo estava fora do lugar e ruim, mas mesmo assim havia uma barreira invisível que eles nunca transpunham. Ela queria gritar por socorro mas o pouco que conseguia fazer ninguém realmente se importava. “Isso passa”, eles diziam. Mas ela sabia que não era bem assim.
Lembrava que durante a semana conseguiu o grande feito de ligar para sua psiquiatra marcando uma consulta.
Como dizer a alguém que você não quer mais viver? Ela era inteligente demais para tentar. Ela tinha de agir, e tinha de ser um tiro certeiro, sem falhas, sem volta. Parecia idiota você ir a um médico para reclamar que não sente mais graça na vida, nas pessoas, e que achava tudo sem sentido. Infelizmente, ela já havia passado por isso e sabia como funcionava. Seu cérebro tinha um defeito, exatamente na parte em que ele deveria processar a felicidade e afins, ele não conseguia. E isso a fazia se sentir pior. Imaginar que ela era doente, com algum defeito, diferente de todo mundo, era ainda mais crítico.
A parte ruim disso tudo era ter de explicar para as pessoas que o mundo era cinza pra você, que sem remédios você sentia uma raiva incontida, uma tristeza intermitente e um pesar constante. Mas ela deixava pra fazer isso quando os remédios estivessem agindo e a dor tivesse passado. Não era esse o caso atual.
Ao chegar à faculdade, ela assistiu às aulas, como um fantasma a vagar. Olhava tudo e todos e quase sentia a alegria deles, como um vampiro, mas era incapaz de representar aquilo tudo, de assumir aquele papel, de viver daquela forma. A maior parte das pessoas a enojava e lhe davam asco por existirem, tanta calúnia, difamação e falsidade sugavam suas energias, e ela não sentia vontade de fazer o mundo um lugar melhor, mas sim de viver em seu próprio mundo, isolada, longe de todos, evitando qualquer coisa ruim porque tudo já era dolorido demais.
Ao voltar para casa, tudo igual. A mesma alegria de todos que a machucava, se sentia impotente, se sentia mal por não conseguir ser aquilo tudo. Culpava-se por não se agregar, por não se inserir no meio social em que vivia.
Entrou em seu quarto e fechou a porta. Colocou mais uma vez seus Beatles. ‘For no one’ era o som do momento, descrevia tudo que ela era e queria ser:
“And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years”
Como um lampejo percebeu que toda aquela dor poderia acabar, e que assim alguém a poderia ajudar, mesmo que em outro lugar, longe daquilo tudo, em outro plano, talvez. Abriu o armário e deu uma olhada em todas suas coisas: tudo parecia banal naquele momento. Divisou a tesoura, o alicate, o compasso, sua imaginação aflorava. Abriu a terceira gaveta da esquerda e tirou a arma que seu amigo havia pedido para guardar umas semanas trás, pois sabia que seria de confiança. Nunca havia disparado um tiro na vida. Colocou a bala que ela havia comprado no dia que ligou para a psiquiatra marcando a consulta e fechou o tambor.
Ainda escutava as risadas do lado de fora, e algo ao mesmo tempo a empurrava e a puxava de fazer isso. Lembrou de John Constantine, pensou no inferno, em seu encontro com Lúcifer, ou Deus.
Após um grande silêncio quebrado por alguns gritos, nada mais importava.
Ela estava livre, pra sempre.

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