Suspiro
Ao andar pela rua, solitária dentre muitas pessoas, rostos e sons, seus olhos percorriam tudo por todos os cantos.
Um sorriso amarelo era estampado e devidamente posicionado a cada empurrão ou solavanco que tomava enquanto todos, com tanta pressa, não a percebiam.
Perdida, a suave brisa batia em seus cabelos, esfriava suas orelhas e arrepiava seu corpo. Ao mesmo tempo o caos, e o silêncio. Um silêncio só dela, que só ela compreendia.
Do outro lado da rua, a carrocinha de churros novamente colocada em seu lugar habitual, fazendo a alegria dos que gostam de um bom doce de leite. Para ela, mais uma peça em todo esse quebra-cabeça.
Ela andava, e sentia o peso de seus vários amigos bem nas suas costas.
Carregava consigo a menina pequena, aquela que pra sempre era criança aos olhos de todos mas que para ela era a maior mulher de todas em tempos. Carregava também a insegura, linda, marcante e peculiar morena, a quem havia feito sofrer mas que não desejava algo mais a não ser sua felicidade. Levava consigo seu irmão, abandonado e mutado pela presença feminina de uma ladra de almas. Andava também com sua quase irmã gêmea, que há pouco havia descoberto que não era tão gêmea afinal, restando somente sua vontade de equiparidade e seu rancor mediante tamanha mosntruosidade que ela possuía.
Carregava também seu outro irmão, o pouco amado. O arroz de seu feijão, o que lhe completava nos mínimos detalhes e aquele a quem recorria quando tudo ia mal e a quem reservava seu dinheiro para ser gasto numa grande aplicação, ele nunca a deixava na mão mas agora era ela quem estava relapsa.
E por fim, carregava os homens de sua vida. Os mais importantes, os menos importantes, todos acorrentados a ela, forçando um peso sub humano que quase a impedia de se locomover. Alguns a machucavam, outros a confortavam, alguns com tridentes, outros com carinhos e afagos. E ninguém ousava arrebentar a corrente, era sabido seu fardo de carregar todos eles para o resto de sua vida, e ela não reclamav, mas sofria.
Mas seu coração ferido, falhava seu pulmão e tornava demias vagaroso seu cérebro. Ela já não tinha mais braços, de tanto lutar contra todos os inimigos que foram vindo como lobos em pele de cordeiro. Não sentia mais suas mãos, pois estas estavam gastas de tanto puxar outros lá de baixo, do fundo, e seus pés, esfolados, para se apoiar, insistiam em resistir.
Seus olhos, dois buracos negros prostrados em um rosto pálido, triste, vergonhoso, deformado. As lágrimas, já não cabiam mais. Ela andava, sussurrava quando queria gritar, e ninguém a ouvia, era apenas mais uma na multidão.
Ela olhava, sem mais um sopro de vida em sua alma, sem ar para alimentar o corpo que antes fazia movimentos graciosos completando sua sublime aparência. Tudo era sombra, todos eram traidores, já não se lembravam dela... A memória se esvaiu com o passar do dia, e ela se deixou esquecer.
Já não respirava. Naquele dia, enquanto andava, com um peso maior do que Atlas havia carregado em mitos gregos há muito esquecidos, ela era só mais uma, como sempre foi, e só suspirava.
Essa era sua vida: amor, ódio, dedicação, tristeza, amizade, obrigação contidos, todos, num último suspiro.
E adeus.

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