Escrita
Era para eu estar estudando, e no entanto estou aqui, no blog, meu psicólogo, em mais um desabafo.
Repentinamente, me cresceu uma vontade imensa de escrever. Sem cessar. Sem parar. Sem vacilar. Escrever até a margem do papel acabar, até as folhas esgotarem, até acabar a memória do computador. Senti vontade de me perder nesse universo de letras, símbolos, números e figuras, esquecer de mim, esquecer da vida.
Posso fazer isso lendo também, mas não estou a vontade para entrar numa II Guerra Mundial ou ir para um conto de terror, prefiro eu, minha mente e meus dedos inquietos, atrofiados de tanta utilização, deformados por tamanha megalomania literária.
Sinto em mim um inundar de palavras, frases, sentidos. Os adjetivos me sobram, os substantivos transbordam e os verbos não cabem mais.
Como farei eu, uma pobre mortal, para traduzir isso tudo em bytes de computador, sendo que o que eu sinto, nem quantidade absurda de neurônios consegue explicar?
É uma questão a se pensar, quando considero todas as minhas vontades. De todas elas, a escrita é a que mais me alimenta, me fortalece.
Quando acho que sou medíocre em tudo, aliás, na maior parte guardando a certeza, a escrita acalenta meu cretinismo, suaviza minha crítica e transparece minha pouca inteligência, e apesar de continuar me sentindo algo menor em geniosidade que um grão de areia, me conforta saber que algo me faz bem sem eu saber bem o que faço.
Não me agrada me alinhar a minha real altura, porque lembro quão pesado é o fardo que carrego de ser quem sou, e ter que me interpretar diariamente.
Certos dias, canso dos meus personagens e me vejo na matriz disso tudo, quase tão sem graça quanto o meu verdadeiro eu, aquele que não aparece e que chega sem avisar, faz estragos e me corrói. Ele me destrói, me enudece sem piedade, retira de mim o menos pior e mostra o horror que é viver querendo ser o que eu penso que sou.
Da menina criança dou um passo em direção a mulher adulta. Me pego reinventado um circo às vezes como palhaço, mágico, ou até mesmo trapezista, me desviando dos problemas cotidianos. Esporadicamente, alterno entre Dr. Jekyll e Mr. Hide, para pensar que somente os dois me bastam, e que isso traz a tão esperada pessoa que eu deveria ser. Mas não me engano. Mais um passo, e sou aquela velha senhora sentada sozinha no balanço, olhando o mar através de suas retinas já desgastadas, enxergando pouco além da vida, e muito até a morte. Mas na maior parte das vezes, sou um nada sem fim, um vazio sem fundo, escuro, denso e perdido na imensidão do tempo e espaço, variando de um para o outro, correndo e parando, perdida.
Até a mensagem já se perdeu, devido a tamanha falta de foco a minha...
E novamente, continuo me achando medíocre em tudo.
Não...
Agora tenho certeza!

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